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Economia Livro do Investimento

Nascimento do Investimento e do Capital

Capital não se cria do nada, resulta da acumulação de ganhos/valor/energia não utilizada no imediato.

A nossa ideia mais imediata seria a acumulação de dinheiro, que depois serviria para comprar produtos ou para investir. Nesta nossa visão, facilmente se poderia criar capital simplesmente imprimindo mais notas ou aumentando o valor do dinheiro em contas bancárias artificialmente. Mas isto é uma falácia, o que simplesmente aconteceria seria uma “diluição” do valor total da sociedade, e em pouco tempo o valor geral dos produtos e serviços aumentaria de preço, traduzindo um aumento da inflação. 

Para perceber melhor a criação de valor podemos pensar nos inícios da civilização humana.

Antes de se inventar a mais importante tecnologia da humanidade (a agricultura), as tribos e grupos de humanos necessitavam de recolher alimento do que o local oferecia, caçando, colhendo frutos e vegetais ou pescando. 

Quando os recursos locais ficassem reduzidos, as tribos agiam de forma nomádica e iam para outro local, caso contrário passariam fome.

Não havia uma real acumulação de energia alimentar, o que havia disponível era consumido. O pensamento de “futuro” era ir para outro local e repetir o processo.

Esta atitude nomádica impedia a ideia de investir, a ideia de não utilizar todos os recursos locais no presente na esperança de obter melhores resultados no futuro. 

Muito simplesmente se não fossem usados no presente corríamos o risco de amanhã não termos rigorosamente nada para comer, e passaríamos fome. 

Esta ideia de consumir tudo no presente é muito importante, e falarei várias vezes disso, porque muitos dos problemas da nossa vida pessoal e financeira têm origem neste mecanismo de sobrevivência obviamente útil numa sociedade nomádica, mas absolutamente inútil e perigoso na nossa civilização actual.

Por vezes fica impossível resistir consumir tudo de uma vez.

Com a invenção da agricultura, os grupos humanos deixaram de necessitar de ter uma vida nomádica, permitindo uma fixação num local. Também passou a haver uma mudança de mentalidade. Se consumissem todas as sementes, não restaria nada para cultivar para o ano seguinte.

Também passou a existir um pensamento de retorno de investimento, pensando seguramente nas próximas colheitas, e como melhorar o resultado destas colheitas.

E o excesso dessas colheitas, como na sua maioria eram cereais, podiam ser guardados em locais secos para uso futuro.

Esta energia (alimento) não usado é no fundo capital. Pode ser usado para cultivar mais campos e obter maior retorno. Pode ser vendido/trocado por outros produtos, serviços, terrenos ou construção de muros, casas, regadios.

Pode ser usado para pagar a um grupo de pessoas para proteger a nossa quinta.

E essas pessoas depois são pagas para cultivar as nossas terras, e assim progressivamente.

Passou a existir uma acumulação energetica na sociedade.

Ao ficarem fixas num local, também passou a existir acumulação de capital fixo. Os regadios, as casas, os muros, as estradas em terra, tudo isto corresponde a capital. 

Claro que este capital só está disponível se a pessoa que o possui o possa usar e guardar num espaço de tempo. O surgimento das civilizações em grande parte deve-se a uma tentativa de organização que permitisse proteger estes campos e reservas de comida daqueles que simplesmente queriam roubar e pilhar. 

Este capital também podia ser comprado e vendido, e a linguagem de valor comum de troca para não transportar sacos e sacos de cereais foi inicialmente a escrita e pequenos objectos de fácil transporte representativos de valor.  

Metais não degradáveis e sem grande utilidade para além da sua beleza como ouro e prata rapidamente ocuparam o lugar nas trocas comerciais, tornando-se aceites em trocas entre várias cidades estado.

Aqui aproximamo-nos mais da nossa ideia de dinheiro = capital, mas percebemos que meramente representa capital, e não tem valor em si mesmo. O seu valor vem da possibilidade de trocar um quilo de prata por cereais para um ano inteiro. 

Se ninguém aceitasse prata em troco de algo, então não teria valor. Podia ser o produto mais raro do mundo, mas se mais ninguém lhe reconhecesse valor, a sua função como dinheiro seria zero.

O valor não vem então do dinheiro em si, este é uma mera representação do valor de capital.

Não deixa de ser extremamente relevante. Por exemplo, alguém que fosse dono de extensas quintas, regadios, rebanhos e alguns celeiros poderia (teoricamente, estamos a falar teoricamente) trocar tudo isto em troca de alguns quilos de ouro, levar estes quilos de ouro para outra cidade estado, e comprar novamente algumas casas, alguns barcos e umas fábricas de papirus. Podia também só vender parte das suas colheitas para poder fazer construir uma fábrica de barcos, que por sua vez permitiria á sua aldeia pescar.

Esta plasticidade do capital acaba de mostrar outra vantagem da acumulação de ganhos. Estes ganhos podem ser reinvestidos (criação de fábrica de barcos) que pode levar a criação de valor (barcos, possibilidade de navegar e pescar, peixe fresco) e que depois pode ser acumulado (os barcos podem ser reutilizados, usados para transporte, e o peixe pode ser seco e consumido mais tarde ou trocado por outros produtos).

Este efeito “compounding” leva a que x valor de capital acumulado produza x+y de capital, que por sua vez produz vai produzir mais capital.

A acompanhar muito desta criação de valor vem o conceito de tecnologia que falaremos em detalhe mais tarde. 

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