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Salário

Fomos ensinados a ser trabalhadores. Desde pequenos aprendemos a ir para a escola segundo um horário, realizar tarefas e cumprir objetivos. Durante 12 anos seguimos este rumo, decidindo depois ainda jovens a “àrea” onde trabalharemos toda a nossa vida.

Decidimos isto baseados na pouca experiência que tivemos, muito desfasada do mundo real, mas perfeitamente apropriada para trabalhar numa indústria.

Horários, regras, funções a cumprir. Repetição da rotina.

De alguma forma também nos foi incutido que seguimos um determinado rumo, vamos para um emprego, talvez mudemos 2 ou 3 vezes de emprego, progredimos na carreira (aumentamos o nosso rendimento mensal) e entre os 60 e 75 teremos direito a uma reforma. Deixaremos de estar nesta rotina, de ter horários, de ter funções a cumprir e teremos um salário menor.

Mas aí sim teremos tempo para, passado uma vida inteira e já com alguma noção do que queríamos ter feito, dedicarmo-nos a fazer exactamente isso.

Para a maioria das pessoas a reforma nem é isso. É a idealização de uma vida perfeita, sem nada para fazer na praia, de alguma forma com a mesma energia que temos quando temos 25 anos pese embora o facto de que aos 75, em média, as pessoas não têm a maior das vitalidades.

Surpreendentemente esta ideia ficou na sociedade, e é aceite. Questionar isto implica imediatamente que “não queremos trabalhar”, “queremos viver do estado”, “não sabemos o que é a vida”, “outros antes de ti fizeram o mesmo e tens de fazer isso”.

Ora eu vou questionar isso em 3 pontos. 

Primeiro ponto é com uma pergunta. Se ganhasse o euromilhões, faria o que faz para ganhar o seu salário?

Pode agora responder que sabe que a maioria dos vencedores do euromilhões acaba em desgraça passado uns anos, e que provavelmente iria ter de voltar a fazer o que faz.

Assumimos que é responsável e o investe em fundos diversificados e vive do rendimento.

Se realmente continuar a fazer o que faz então óptimo! No ponto seguinte vou falar das vantagens de não depender do seu salário.

Se não gosta, e faria outra coisa, pense nisso. Que gostaria de fazer? Talvez nunca pensou verdadeiramente na questão. A resposta imediata seria estar na praia todo o dia com um refresco, ou se não gosta de praia estar todo o dia num café, a beber um refresco.

Imaginemos que realmente faz isso. 5 meses passam, de muita praia e refrescos. Nem todos os dias tem companhia porque os seus colegas e amigos vão trabalhar ou para as suas actividades. 1 ano depois de muita praia e refrescos vai querer arranjar mais actividades. Ocupar o seu tempo. 

Sempre gostou de carros, fica interessado em renovar um por exemplo. Vai aprendendo nas horas mais livres da sua ocupação “praia e refresco”.  Ajuda a renovar uns carros de uns conhecidos, depois vai ajudando numa oficina. Fica mais entusiasmado e resolve ir ter formação na àrea. Vai a congressos de renovadores de carros e não só. Gosta tanto da temática que resolve escrever disso. E imagine só que já lhe pagam para renovar carros!

Como é milionário você distribui a um infantário local de crianças necessitadas.

Mas gosta da ideia! 

O que fiz aqui foi ilustrar o meu primeiro ponto. O ser financeiramente independente vai permitir descobrir e fazer aquilo que realmente gosta, e seguir sem medos de acabar na pobreza esse sonho.

O segundo ponto vai pegar no anterior. E se realmente está a fazer aquilo que sonha? Para quê preocupar-me? Já faço o que gosto e pagam-me, porque dar-me ao trabalho de ser financeiramente independente?  

Bom, está despedido.

Veio a crise, a empresa não estava a contar ou o estado precisava de emagrecer ou o mercado ficou instável e você está despedido.

O seu emprego de sonho acabou de desaparecer, e pode tentar arranjar o mesmo emprego noutra empresa, noutro local, mas pode não conseguir logo. E entretanto as suas reservas esgotam e tem de ir para outro emprego, relacionado ou não, mas que claramente não é o emprego de sonho. Se ganhasse o euromilhões claramente mudaria, e voltamos ao ponto 1.

O segundo ponto ilustra a necessidade de ser financeiramente independente mesmo que no actual momento pareça que não precise de ser. A vida é instável, caótica, imprevisível, e ser financeiramente independente permite que as variações mais negativas não o afetem.

Pode aceitar o mesmo emprego a um salário reduzido, ou até trabalhar de graça! 

O terceiro ponto é simples. Não seja empregado.

No nosso país muitas vezes somos condicionados com a ideia de “ter de trabalhar para alguém”, procurar emprego, ver se há vagas. E muitas vezes temos de seguir esse rumo porque não temos uma almofada financeira que nos permita dizer “vou fazer o meu rumo”.

Porque na maioria das vezes essa tentativa corre efectivamente mal (a taxa de falência a 2 anos de pequenas empresas é abismal). Mas se não se endividar para criar o seu negócio, e tendo a almofada financeira, pode arriscar.

Como disse no ponto 2, ser financeiramente independente reduz as variações negativas que a vida nos atira, e neste caso reduz o impacto que a sua nova empresa ao falir tem na sua vida.

Ser financeiramente independente torna a possibilidade de sermos donos do nosso rumo mais apetecível. 

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Tecnologia e Informação

A nossa civilização parece progredir no sentido de maior captura e uso de energia, e de forma progressivamente mais eficiente.

Como já referi, a primeira grande invenção da humanidade foi a agricultura, que permitiu capturar fluxos de energia alimentar de forma relativamente constante, permitindo um planeamento mais a longo prazo das comunidades.

A domesticação animal foi outro grande avanço, permitindo mais uma vez energia alimentar relativamente constante adicionando o benefício da proteína (leite, queijo e carne animal) e fibras (para criar roupa).

Depois outra grande tecnologia foi a escrita, que inicialmente era usada para registar movimentos de comércio e efectivamente funcionava como uma forma de dinheiro. 

Mas esta tecnologia permitiu algo que até então era difícil.

Maior parte do conhecimento era cumulativo, mas estava diluído no conhecimento individual e da tribo.

Os elementos mais velhos passavam esse conhecimento aos mais novos. Como cultivar, o que cultivar, como irrigar, etc.

Se houvesse uma crise que removesse vários elementos da sociedade, como uma epidemia, fome devido a condições ambientais ou uma guerra, parte desse conhecimento era perdido e muitas vezes de forma permanente.

A escrita veio permitir que esse conhecimento ficasse registado e não fosse perdido. 

  • Veio permitir que o conhecimento se acumulasse, dado o limite da memória do ser humano;
  • Permitiu maior fiabilidade na informação registada; os humanos são muito sujeitos a vieses e a sobreposições de memórias, mas se a informação fica registada, esta pode ser acedida com a mesma acuracidade, caso não ocorra nenhum dano ao meio onde ficou assente; 
  • Permitiu maior partilha  da informação, ao poder ser acedida  independentemente de quem inicialmente a escreveu ou do local onde foi originalmente registada.
  • Permitiu replicação da informação, ao serem criadas cópias do registo original;
  • Fomentou um pensamento mais exacto e racional, evitando perdas de informação devido a lapsos de memória, e ao uso do registo como uma memória externa ao pensamento.
  • Permitiu um pensamento mais matemático, obviamente fomentado pelo cálculo de valores em trocas comerciais. 
  • Permitiu o surgimento de sociedades com populações superiores a 150 membros (próximo do máximo para uma tribo), ao registar propriedades, valores, regras, soldados etc, dando origem a sociedades hierárquicas sustentadas por sistemas e regras, com populações muito superiores à época pré-agricultura. 

Com a escrita efectivamente fica aberto o caminho para a acumulação tecnológica. A acumulação de conhecimento leva a que novas ideias possam ser descobertas, com base no que já se conhece. Isaac Newton falava de estarmos “sobre os ombros de gigantes” (embora a expressão tenha origem medieval) isto é, o crescimento da humanidade foi e continua a ser possível, através do acumular de energia e informação.

 

O grande obstáculo, que até 1800 impediu grande avanço tecnológico, foi a ausência de pensamento científico e as sociedades altamente hierarquizadas. 

Sem pensamento científico, muitas das observações de fenômenos da natureza eram explicados por processos mágicos, deuses, e fenômenos ocultos. Por outras palavras, eram descritos como acontecimentos fora do alcance do conhecimento humano. Sem testarem as hipóteses feitas, este “conhecimento” acumulado era fundamentalmente falso, e tudo o que se construísse com base nele seria também falso. 

Com a origem do processo científico (que se desenvolveu já na grécia antiga mas efectivamente teve grande adopção na Grã-Bretanha do século XIX), o conhecimento foi progressivamente validado ao ser testado constantemente, na tentativa de adquirir modelos que explicassem de forma cada vez mais fiável o nosso universo.

Também nesta altura e local chegava ao fim uma sociedade hierárquica, com o poder do parlamento Britânico a superar as intenções da coroa Inglesa e da classe que vivia das rendas e extração de rendimentos da população produtiva inglesa. 

Estas duas coincidências levaram a que esta nova classe mercantil, com poder político e tecnológico, procurasse competir no mercado, de forma livre. 

Ficou aberta assim a fonte que levou a humanidade ao seu período de crescimento exponencial que hoje permite, a uma % cada vez maior da população mundial , viver sem fome, com electricidade, água potável, comunicações instantâneas e acesso a quantidades de informação antes indisponíveis mesmo aos maiores monarcas.

No seguinte capítulo abordarei as consequências ecológicas dessa escalada tecnológica, e porque devemos acreditar num futuro melhor. 

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Nascimento do Investimento e do Capital

Capital não se cria do nada, resulta da acumulação de ganhos/valor/energia não utilizada no imediato.

A nossa ideia mais imediata seria a acumulação de dinheiro, que depois serviria para comprar produtos ou para investir. Nesta nossa visão, facilmente se poderia criar capital simplesmente imprimindo mais notas ou aumentando o valor do dinheiro em contas bancárias artificialmente. Mas isto é uma falácia, o que simplesmente aconteceria seria uma “diluição” do valor total da sociedade, e em pouco tempo o valor geral dos produtos e serviços aumentaria de preço, traduzindo um aumento da inflação. 

Para perceber melhor a criação de valor podemos pensar nos inícios da civilização humana.

Antes de se inventar a mais importante tecnologia da humanidade (a agricultura), as tribos e grupos de humanos necessitavam de recolher alimento do que o local oferecia, caçando, colhendo frutos e vegetais ou pescando. 

Quando os recursos locais ficassem reduzidos, as tribos agiam de forma nomádica e iam para outro local, caso contrário passariam fome.

Não havia uma real acumulação de energia alimentar, o que havia disponível era consumido. O pensamento de “futuro” era ir para outro local e repetir o processo.

Esta atitude nomádica impedia a ideia de investir, a ideia de não utilizar todos os recursos locais no presente na esperança de obter melhores resultados no futuro. 

Muito simplesmente se não fossem usados no presente corríamos o risco de amanhã não termos rigorosamente nada para comer, e passaríamos fome. 

Esta ideia de consumir tudo no presente é muito importante, e falarei várias vezes disso, porque muitos dos problemas da nossa vida pessoal e financeira têm origem neste mecanismo de sobrevivência obviamente útil numa sociedade nomádica, mas absolutamente inútil e perigoso na nossa civilização actual.

Por vezes fica impossível resistir consumir tudo de uma vez.

Com a invenção da agricultura, os grupos humanos deixaram de necessitar de ter uma vida nomádica, permitindo uma fixação num local. Também passou a haver uma mudança de mentalidade. Se consumissem todas as sementes, não restaria nada para cultivar para o ano seguinte.

Também passou a existir um pensamento de retorno de investimento, pensando seguramente nas próximas colheitas, e como melhorar o resultado destas colheitas.

E o excesso dessas colheitas, como na sua maioria eram cereais, podiam ser guardados em locais secos para uso futuro.

Esta energia (alimento) não usado é no fundo capital. Pode ser usado para cultivar mais campos e obter maior retorno. Pode ser vendido/trocado por outros produtos, serviços, terrenos ou construção de muros, casas, regadios.

Pode ser usado para pagar a um grupo de pessoas para proteger a nossa quinta.

E essas pessoas depois são pagas para cultivar as nossas terras, e assim progressivamente.

Passou a existir uma acumulação energetica na sociedade.

Ao ficarem fixas num local, também passou a existir acumulação de capital fixo. Os regadios, as casas, os muros, as estradas em terra, tudo isto corresponde a capital. 

Claro que este capital só está disponível se a pessoa que o possui o possa usar e guardar num espaço de tempo. O surgimento das civilizações em grande parte deve-se a uma tentativa de organização que permitisse proteger estes campos e reservas de comida daqueles que simplesmente queriam roubar e pilhar. 

Este capital também podia ser comprado e vendido, e a linguagem de valor comum de troca para não transportar sacos e sacos de cereais foi inicialmente a escrita e pequenos objectos de fácil transporte representativos de valor.  

Metais não degradáveis e sem grande utilidade para além da sua beleza como ouro e prata rapidamente ocuparam o lugar nas trocas comerciais, tornando-se aceites em trocas entre várias cidades estado.

Aqui aproximamo-nos mais da nossa ideia de dinheiro = capital, mas percebemos que meramente representa capital, e não tem valor em si mesmo. O seu valor vem da possibilidade de trocar um quilo de prata por cereais para um ano inteiro. 

Se ninguém aceitasse prata em troco de algo, então não teria valor. Podia ser o produto mais raro do mundo, mas se mais ninguém lhe reconhecesse valor, a sua função como dinheiro seria zero.

O valor não vem então do dinheiro em si, este é uma mera representação do valor de capital.

Não deixa de ser extremamente relevante. Por exemplo, alguém que fosse dono de extensas quintas, regadios, rebanhos e alguns celeiros poderia (teoricamente, estamos a falar teoricamente) trocar tudo isto em troca de alguns quilos de ouro, levar estes quilos de ouro para outra cidade estado, e comprar novamente algumas casas, alguns barcos e umas fábricas de papirus. Podia também só vender parte das suas colheitas para poder fazer construir uma fábrica de barcos, que por sua vez permitiria á sua aldeia pescar.

Esta plasticidade do capital acaba de mostrar outra vantagem da acumulação de ganhos. Estes ganhos podem ser reinvestidos (criação de fábrica de barcos) que pode levar a criação de valor (barcos, possibilidade de navegar e pescar, peixe fresco) e que depois pode ser acumulado (os barcos podem ser reutilizados, usados para transporte, e o peixe pode ser seco e consumido mais tarde ou trocado por outros produtos).

Este efeito “compounding” leva a que x valor de capital acumulado produza x+y de capital, que por sua vez produz vai produzir mais capital.

A acompanhar muito desta criação de valor vem o conceito de tecnologia que falaremos em detalhe mais tarde. 

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